J'ai été invité par Regina pour illustrer son futur livre de contes et poésie. Je vous présente un de mes dessins et le conte correspondant, écrit par Regina.
A INÉRCIA
O meu vizinho está a ficar velho de tanto pensar. Na verdade, nem se considera grande conhecedor dos mecanismos do mundo. Nem disso, nem de nada. Toma uma aspirina por dia por causa do coração. Porém, esta prescrição médica, não altera o rumo dos acontecimentos.Ele mora no último andar do prédio e aproveita essa vantagem para colocar moinhos de papel em todas as suas janelas e varandas. Há dias em que nem a mais pequena brisa sopra. Essa imobilidade eólica faz com que o meu vizinho fique muito deprimido. Quando isso acontece, ele compreende, com aguda lucidez e desespero, que as coisas funcionam num ritmo tão certo, que ninguém pode ficar à espera das mudanças do universo. Apesar de tudo, o coração não cessa de bater e os moinhos de papel acordam para acelerarem a vida. Há dias em que anda tudo pelos ares, em que se tem de calafetar as portas e apertar as mãos contra o peito.Não existe nada que se possa fazer pelo mundo. O meu vizinho fecha os olhos e sonha com estradas automáticas que, como tapetes rolantes, possam transportar as pessoas para todos os sítios. O problema é que essas estradas teriam de andar a uma velocidade demasiado reduzida para que os seus utilizadores pudessem entrar ou sair.Na casa do meu vizinho encontram-se muitos cadernos de papel quadriculado espalhados por cima de todas as mesas. Nessas folhas, existem inúmeros desenhos feitos com base em cálculos matemáticos. Também há um sem fim de maquetas, que o meu vizinho não consegue explicar. São miniaturas cheias de alavancas, roldanas e planos inclinados. Nenhuma daquelas engenhocas funciona. E as partes que têm algum movimento, deslizam ou rodam, mas sem qualquer finalidade.O meu vizinho pensa na vida, contudo, não sabe nada de assuntos práticos. Apenas sonha e tem fascínio por sítios altos. Se pudesse, inventaria um elevador que nunca parasse de subir.Ele não tem ilusões quanto ao rumo da humanidade. É exactamente por isso que quer dar o seu melhor. A mulher com quem tinha casado há mais de quarenta anos, cansou-se de o acompanhar naquelas especulações existenciais e deixou-o. A partir do momento em que passou a viver sozinho, ficou mais à vontade e deixou as maquetas espalhadas pelo chão.Agora tudo é mais fácil. Junto dos moinhos de papel, pôs vasos com girassóis que cresceram de uma forma descomunal. Dentro de casa, já quase não se vê a luz do dia. Isto não lhe faz qualquer diferença, uma vez que está tão absorto no labirinto dos seus pensamentos, que se esquece de tudo o resto. O meu vizinho é um indivíduo que vive só para dentro. Isso acontece, não por vontade própria, mas porque ele não consegue encontrar um jeito para se infiltrar no mundo real.Não há nada que mais o entusiasme do que a acção que cada pessoa é capaz de concretizar. Na verdade, ele age para além das suas forças. Ainda assim, sente-se profundamente insatisfeito. Quanto mais pensa na vida, maior é o seu estado de prostração.Conforme os dias passam, todos os seus projectos vão sendo abandonados. Nas suas invenções, não há uma única roda que não esteja já partida. Nem um único desenho que não tenha ficado esborratado por extensas manchas de humidade. Todas as coisas estão em ruína. No entanto, para ele, quanto mais nítida é essa decadência, mais obstinada é a sua determinação em querer fazer qualquer coisa pelo mundo. O único problema é que não sabe por onde começar. E sofre porque se apercebe que, em virtude da idade, esta indecisão pode parecer absurda, para não dizer ridícula. Ele devia preocupar-se, não com o que quer começar, mas sim com o está para acabar. E até isto é triste. Porque, de tudo quanto fez ou tentou fazer, nada concluiu. Melhor dizendo, no âmbito da inutilidade, todos os objectivos se concluem. Mesmo que fiquem por fazer. O meu vizinho está ciente de que pode morrer e deixar tudo tal como está, sem que com isso advenha qualquer prejuízo para o mundo. Apesar dessa certeza, não desiste.À medida que o tempo passa, mais urgente e desesperada é a sua vontade de mudar o mundo. Pelas madrugadas, ouço os seus passos de um lado para o outro. Toma as aspirinas por causa do coração. Mas esse cuidado de pouco vale, uma vez que ele não descansa nem se alimenta como deve ser. Os seus girassóis continuam a crescer a um ritmo desenfreado. As folhas e as raízes já devem ter entrado pela casa adentro.De uns tempos para cá, deixei de me cruzar com o meu vizinho nas escadas. Todos os dias ele vinha buscar a correspondência. Se deixou de o fazer, é porque deve estar acantonado dentro de casa. Os seus passos são os únicos sinais da sua existência. Mas já nem sei se os ouço, ou se eles são um hábito que ficou a ecoar nos meus ouvidos.Para poder sossegar, teria de subir as escadas e bater-lhe à porta. Todavia, acho preferível que tudo fique como está. Enquanto os moinhos de papel estiverem activos, o mundo estará a salvo.

1 comentários:
Enquanto existir actividade não há inercia. Os moinhos só giram porque alguém os colocou em local de girar, os girassóis crescem porque alguém os alimenta... e as flores são tão belas para o mundo, como o são os moinhos de papel. Parabéns pelo conto e pelo desenho, que está fantástico.
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