segunda-feira, 9 de junho de 2008

BATER À PORTA DA SOLIDÃO

Aqui está mais um dos meus momentos de inspiração numa ilustração de um conto da Regina.





Convidou-me logo a entrar sem me conhecer. Ofereceu-me café e pôs tudo quanto tinha na mesa, sem me dar tempo para lhe explicar que eu era apenas uma vendedora que lhe vinha incutir os meus produtos. Ela não dava espaço às minhas palavras, dizia-me que vivia sozinha há quinze anos e que precisava muito de encontrar um anel que tinha perdido, fazia uma hora. O melhor seria começar pela sala, ver debaixo dos sofás, dentro dos cinzeiros e atrás dos livros.
Queria desculpar-me e dizer que tinha muita pena, mas não podia ficar ali. Ela, porém, não me ouvia e dava-me um banquinho para eu espreitar em cima da prateleira. Aquilo tornou-se mesmo uma invasão à minha disponibilidade, um jogo de prender e libertar. Ela era uma velhinha toda branca, toda bem servida de sorrisos e simpatia. Eu tinha a idade e o porte que lhe convinha, pois podia chegar com mais facilidade aos lugares mais perigosos para o seu corpo já pobre de equilíbrio. Eu houvera-lhe caído do céu.
Olhei para o meu relógio e ele tinha parado. Ela encheu-me as mãos de biscoitos e puxou-me atrás dela como um gato pela escada acima. No seu quarto havia dúzias e dúzias de caixinhas espalhadas pelo chão da sua vida. Havia uma boneca com laços azuis e um jeito dormente de não dar por nada. Não, tinha mesmo de me libertar daquela melodia, não podia ficar no meio das suas rosas. O anel que ela procurava não devia fazer-lhe falta nenhuma. Mas ela sentou-se numa cadeira de baloiço e contou-me a saudade que tinha daquele anel, de todos, o mais pequeno. Entrava uma ligeira brisa pelas cortinas transparentes do seu olhar. Ela tinha um livro nas mãos e de repente ficou tão ausente que não tive coragem para quebrar o seu silêncio. Depois, propôs que, se eu lhe encontrasse o anel ela me ofereceria um livro sobre como cuidar das flores. Não conseguia ter forças para sair fora daquele fogo cerrado de ternura. Além disso, ela não me ouviria nem que lhe gritasse aos ouvidos. Agitei os braços em sinal de rendição, mas ela não via a minha bandeira branca e já me arrastava pelo corredor e abria a varanda da sua solidão: As flores são como as crianças, precisam de ser elogiadas e admiradas todos os dias.
Se tivesse vindo com mais vagar, talvez não me importasse de ouvir as suas longas memórias. Mas naquele dia, eu estava ali para vender os meus produtos e por isso tinha de recuperar o meu poder de persuasão, se quisesse evitar uma derrota completa. Abri a minha voz soante e forte e disparei-lhe com todos os catálogos que trazia. Mas ela estava numa fortaleza tão humana e tranquila que nenhuma promoção ou desconto fantástico a conseguiu abalar. Levou-me até aos armários da cozinha onde tudo tinha um sabor a mel puro. Lá fora, era quase noite e eu tinha de fugir de qualquer maneira. A porta estava aberta, mas alcançá-la era como quebrar um encantamento; não via como desligar-me daquele seu abraço. Deveria confessar-lhe o meu desdém, dizer que não me interessava minimamente por flores nem tinha paciência para procurar coisas pequenas e insignificantes. Precisava pôr um ar grave e sério no rosto, de lhe mostrar todas as minhas partes mesquinhas, de lhe dar com as minhas garras e os meus venenos. Mas o meu relógio continuava parado e eu já tinha perdido o valor real dos meus produtos e a distância com a qual sempre lidara com os outros.
Desisti. De mim, começaram a nascer os primeiros gestos desinteressados, os primeiros cânticos de ternura. Peguei-lhe nas mãos e agradeci o tempo que me dera; olhei e vi o anel nos seus dedos.

0 comentários: